Essa é uma peça de teatro escrita pelo maravilhoso Ariano Suassuna, em que ele defende com humor e poesia os benefícios e o direito do povo ao chamado “ócio criativo”.
A trama gira em torno de Simão, um poeta preguiçoso que tenta viver de sua arte e aproveitar seus momentos de descanso. Ao seu lado está Nevinha, sua fiel esposa. O casal, no entanto, é constantemente importunado por Aderaldo e Clarabela, representantes da elite local, que tentam provar a todo custo que Simão é apenas um preguiçoso, enquanto eles, ricos e cheios de pompa, estariam certos em tudo.
Nós, povos castanhos do mundo, sabemos, ao contrário, que único verdadeiro objetivo do trabalho é a preguiça, que ele proporciona depois, e na qual podemos nos entregar à alegria do único trabalho verdadeiramente digno, o trabalho criador, livre e gratuito.
Como é típico das obras de Suassuna, os personagens são uma verdadeira delícia, engraçados, carismáticos e cheios de personalidade. Quem já leu ou assistiu O Auto da Compadecida reconhecerá facilmente esse estilo. Clarabela lembra bastante a mulher do padeiro dessa obra e também o tipo de personagem que o próprio Ariano costumava satirizar em suas palestras, como naquele famoso vídeo em que ele fala da mulher que divide a humanidade entre quem foi ou não à Disney.
A peça aborda diferenças de classe, amor, a inteligência do humilde em contraste com a burrice e a arrogância dos poderosos. Também traz de forma sutil reflexões sobre preguiça, moral cristã e os costumes da cultura popular brasileira, sempre com a irreverência e a crítica social que marcam o teatro de Suassuna.
Confesso que não foi simples ler a história com a cabeça de hoje. Não dá para julgar os personagens sob o olhar do politicamente correto atual. Eles pertencem a outro tempo e a uma cultura muito particular e única. O segredo é se deixar levar. E quando me permiti isso, a trama me surpreendeu com boas reviravoltas. O comportamento dos personagens nunca é exatamente o que se espera, pelo menos não o que eu esperava. Em alguns momentos percebi que eu era tão ingênua, para não dizer tão Clarabela, quanto a própria personagem. Não dá para subestimar o teatro popular.
Li a obra aos poucos, seguindo os três atos de A Farsa da Boa Preguiça. Mas é perfeitamente possível lê-la de uma só vez, já que cada ato prende o leitor e torna quase impossível parar no meio. É uma leitura deliciosa, divertida e ao mesmo tempo cheia de reflexões profundas sobre a sociedade em que vivemos.
Recomendo demais essa peça para quem procura algo leve e engraçado, mas que também instiga a pensar. Ariano Suassuna mais uma vez mostra que sabia como ninguém transformar a cultura popular em arte universal.
Diário de leitura
Aqui está meu diário, tudo que senti durante a leitura dessa obra. Não se iluda com as primeiras impressões, pois elas sempre podem mudar. Ou não.
O começo
Logo de cara, antes mesmo da peça começar, Ariano Suassuna manda uma carta explicando suas intenções. Eu já fiquei feliz só de imaginar a voz dele lendo aquilo para mim. E não era pouca coisa não, parecia até que eu estava assistindo àquelas palestras dele na internet, que a gente assiste mil vezes e continua rindo.
E eu juro, concordei com cada palavra. Marquei várias passagens, me senti quase uma intelectual. Mas aí percebi que só estava rabiscando “kkkkk” na margem, praticamente uma Clarabela. Mesmo assim, tudo parece tão atual que dá até raiva. A gente ainda vivendo de viralatice, pagando pau para os americanos, enquanto Suassuna já avisava faz tempo que o valor da nossa cultura é ouro puro. Será que um dia vamos aprender?
aqueles que vivem, no Brasil, eternamente preocupados com “a opinião que estão fazendo de nós, lá fora”.
O meio
A peça é rápida de ler, mas eu, claro, demorei. Não por dificuldade, mas porque minha vida é uma mistura de falta de tempo com preguiça de sobra. Combinação perfeita para ler esse livro, diga-se de passagem.
O primeiro ato me pegou com Clarabela. Ela tenta bancar a culta para cima de Simão, mas cai num truque tão óbvio que até eu, que nem sou leitora de mistério, percebi antes dela.
Já o segundo ato foi surpresa atrás de surpresa. Eu jurava que Nevinha era a esposa submissa. Mas não! A mulher já sabia de tudo, ouviu a tramóia de Simão com Aderaldo e entrou no jogo. Quando percebi isso, soltei um “Eitaaaa” em voz alta. Sozinha. No ônibus. As pessoas mudaram de assento. (Não mudaram, mas poderiam)
O fim
O último ato é um presente. Tem São Pedro comendo queijo e enganando todo mundo e Simão tentando de todas as formas não ir para o inferno. Foi tão engraçado que eu quase quis ser julgada também, só para participar da cena.
Ler esse final me deu uma vontade enorme de ver a peça encenada. Porque se no papel já é divertido, imagina no palco!
e eu trabalho: penso, escrevo, invento, na Poesia, crio histórias para os outros, espalho alguma alegria, espanto a treva do mundo que em meu sangue se alumia, dou beleza ao crime e ao choro… É pouco, mas tem valia!
Minha conclusão é que esse livro é impossível de não gostar. Eu, como preguiçosa de carteirinha, o defenderei até o dia do meu julgamento. Como diz um dos personagens, quem trabalha sabe a importância da boa preguiça. Eu não sei se sei trabalhar, mas preguiça eu pratico como esporte olímpico. E vou te dizer: se existir um céu dos preguiçosos, Suassuna já está lá de rede armada, rindo da nossa cara.
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