Hamnet - Maggie O'Farrell

 


Eu decidi ler esse livro porque quero assistir ao filme que concorreu ao Oscar e, como muita gente que lê, tenho essa mania meio inflexível de não ver a adaptação antes de conhecer a obra original. É por isso, inclusive, que nunca assisti It: A Coisa até hoje. Mas esse é outro assunto. Aqui vamos falar de Hamnet.

O livro conta a história de um dos filhos de Shakespeare, mas principalmente de sua mãe, uma mulher extraordinária. Ambos aparentemente existiram de verdade, mas o que a autora faz aqui é algo que eu gosto de chamar de fanfic histórica. Oficialmente entra no gênero de ficção histórica, claro, mas eu prefiro fanfic porque existe uma liberdade deliciosa em imaginar acontecimentos sobre pessoas reais cujos registros são incompletos. Inventar encontros, sentimentos, gestos, silêncios. Isso deixa a leitura muito mais saborosa.

Existe, ela descobriu, um tremendo poder a ser exercido em silêncio.

A narrativa começa com Agnes, esposa de Shakespeare e mãe de Hamnet. Acompanhamos sua infância, a formação dessa mulher tão singular e o caminho que a leva a conhecer o dramaturgo. A história de amor dos dois vai sendo costurada enquanto a autora alterna passado e presente, especialmente no momento em que um dos filhos do casal adoece. Essa divisão de tempos dá ritmo à trama e cria uma tensão silenciosa que acompanha o leitor.

Logo no início, o estilo de escrita da autora já me conquistou. Ela transita entre tempos e histórias diferentes com muita naturalidade, tudo se encaixa com precisão. A escrita é bonita, delicada, mas nada difícil de acompanhar. Você vai entrando na história sem perceber, e quando se dá conta já está no meio do livro, completamente imersa.

A obra fala sobre amor, perda, força e uma certa magia que atravessa tudo. É uma história triste, mas também encantadora. Tudo é muito bem construído, e a forma como os personagens e os cenários são apresentados faz com que a gente se sinta ali, vivendo junto com aquelas pessoas tão cheias de personalidade.

Ela cresce se sentindo errada, inadequada, morena demais, alta demais, demasiado indomável, demasiado obstinada, calada demais, esquisita demais.

Gostei de todos os personagens, mas Agnes, sem dúvida, foi a que mais me marcou. Suas plantas que curam, suas raízes fincadas na floresta, a ligação profunda com a natureza e sua força feminina tornam a personagem fascinante. Achei especialmente interessante o fato de que o nome de Shakespeare nunca é mencionado. Acredito que isso seja proposital, para deixar claro que essa não é uma história sobre ele, ou pelo menos não apenas sobre ele.

Agnes é uma personagem que parece uma mistura de Cinderela com feitiçaria, uma mulher linda, forte e misteriosa. A autora escreve de um jeito tão sensível que eu sentia tudo o que os personagens sentiam. Sofri com Agnes ainda criança, com suas perdas, e com a angústia do jovem Hamnet.

Ela cresce fascinada pelas mãos dos outros, inclinada a tocá-las, a senti-las entre as suas.

Não há grandes reviravoltas, suspense intenso ou surpresas na trama. É uma história que, de certa forma, já conhecemos. O que nos move é o desejo de entender como tudo aconteceu, de forma mais íntima e detalhada, mesmo sabendo que muito daquilo é fruto da imaginação da autora. Queremos ser encantados pela narrativa e pela maneira como ela nos conduz.

Não foi uma leitura que me prendeu de forma ansiosa. Consegui ler com calma, sem aquela urgência de terminar. É curioso porque não era um livro que me fazia pensar nele o tempo todo quando estava longe, mas, quando eu pegava para ler, não conseguia parar e acabava avançando muitas páginas de uma vez.

Acredito que seja uma leitura que agrade a maioria dos leitores, especialmente quem gosta de dramas familiares, quem tem alguma curiosidade pela obra de Shakespeare ou simplesmente quem não se importa em viajar para um mundo encantado onde o escritor aparece mais como personagem do que como autor.

No fim, Hamnet é um livro sobre uma história simples, que se torna profundamente comovente justamente pela forma como é contada. É impressionante como uma cena aparentemente banal, como alguém chegando a um teatro e entendendo o motivo de uma peça existir, pode ser tão bonita e tão tocante. Eu terminei a leitura literalmente boquiaberta!

…porque não existe nada depois da morte. Existe a terra e existe o corpo e tudo vira nada.

0 Comentarios

Tecnologia do Blogger.