Tem esse médico, supostamente um psiquiatra, que ao receber seus pacientes lhes receita um gato. Simples assim. Cada paciente chega com um problema diferente e sai com um bichano específico para lidar com aquilo. Acompanhamos, então, várias histórias individuais e como esses gatos acabam ajudando essas pessoas a se reorganizarem emocionalmente, cada uma à sua maneira.
A narrativa deixa bem claro que, às vezes, a solução para nossos problemas é muito mais simples do que imaginamos. Tão simples que um gato consegue resolvê-los enquanto a gente segue sofrendo, perdido, feito um animal sem rumo. Vou te receitar um gato fala sobre família, amizades, trabalho, convivência, empatia e essas pequenas coisas que compõem a vida cotidiana e que, no fim, são onde moram quase todos os nossos conflitos.
Os personagens são variados. Temos um rapaz com problemas no trabalho, um senhor com dificuldade de se relacionar com mulheres, uma mãe que não sabe lidar com a filha, uma empresária tentando administrar um relacionamento, uma gueixa, um veterinário. São muitas pessoas diferentes, todas atravessadas por pequenas dores e inseguranças, compartilhando espaço dentro do mesmo livro.
Não se preocupe, a maioria dos problemas se resolve com um gato.
Syou Ishida escreve de forma simples e clara, seguindo sempre a mesma estrutura em todos os contos. As histórias se repetem no formato, mas se conectam pelo médico e pelos gatos receitados a cada paciente. Essa repetição parece ser uma característica da chamada literatura de cura, como se a insistência no mesmo esquema reforçasse o ensinamento que a narrativa quer passar. Já li outros livros do gênero e eles funcionam de forma bem parecida.
Apesar disso, eu não me conectei emocionalmente de maneira profunda com a história. Sinto que a autora não se aprofunda tanto nos sentimentos e emoções dos personagens. É tudo muito fofo, delicado e agradável, mas também um pouco superficial. Ao mesmo tempo, entendo que talvez essa seja justamente a proposta do livro. Ele não quer provocar grandes abalos emocionais, nem fazer o leitor mergulhar em dores intensas. A ideia é acolher, aliviar, deixar a leitura leve. É, afinal, literatura de cura.
Existe um pequeno mistério ao longo da narrativa, algo que atravessa os contos e dá um pouco mais de interesse ao conjunto. Nada muito complexo ou capaz de gerar ansiedade no leitor. É um detalhe simples, revelado apenas no final, de uma forma tranquila e satisfatória.
Não foi uma leitura que me prendeu completamente. Não era um livro que me chamava enquanto eu fazia outras coisas. Mais perto do final, quando o mistério começa a se esclarecer, fiquei um pouco mais envolvida e terminei a leitura satisfeita com o desfecho.
O ponto fraco da obra é justamente não suscitar emoções fortes. E, curiosamente, esse também é o seu ponto forte. Ao mesmo tempo em que não empolga, também não perturba. Não incomoda, não pesa, não exige. Isso faz com que a leitura seja leve, previsível e apenas gostosinha, no melhor e no pior sentido da palavra.
Acredito que leitores que gostam de literatura de cura estão realizados porque existem muitos livros nesse estilo, todos muito parecidos entre si, usando quase sempre a mesma fórmula. Quem gosta de um, provavelmente vai gostar da maioria.
Eu recomendaria esse livro para amantes de gatos, para quem já gosta de literatura de cura e para pessoas que conseguem ler sem a necessidade de serem fisgadas o tempo todo. É uma leitura para quem aprecia histórias leves, previsíveis, sem grandes emoções e sem grandes sobressaltos.

























.jpeg)




