Um homem isolado em seu subsolo, dominado pela tristeza e pelo rancor, escreve de forma brutalmente honesta sobre seus pensamentos e sentimentos, revelando episódios de sua vida miserável.
A obra é uma crítica à sociedade russa da época e mostra como esse indivíduo se relacionava com um período histórico de profundas mudanças. O texto aborda questões de classe social, ressentimento, inveja e uma tristeza devastadora.
O narrador é também o personagem principal. Perturbado e contraditório, faz questão de transmitir ao leitor toda a intensidade de sua própria perturbação. À medida que a narrativa avança, é impossível não experimentar sentimentos ambíguos em relação a ele, já que sua personalidade é marcada por paradoxos.
Não só não consegui me tornar maldoso como fui incapaz de me tornar qualquer coisa: nem mau nem bom, nem crápula nem puro, nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo no meu canto e atiço a mim mesmo com um consolo pérfido, que não serve pra nada, e que vem da ideia de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se coisa nenhuma e que só um imbecil se torna alguma coisa.
Embora seja uma história desagradável, que desperta sensações incômodas e raramente positivas, a escrita é tão envolvente que se torna impossível interromper a leitura. A ambientação contribui fortemente para essa experiência, pois os espaços descritos refletem a claustrofobia, o isolamento e a decadência emocional do protagonista, fazendo o leitor sentir-se mergulhado no mesmo subsolo de autopiedade em que ele se encontra.
O início do livro se assemelha a uma longa carta de repúdio, uma queixa incessante contra uma sociedade que o personagem não aceita e da qual também não se sente aceito. Nesse ponto, ainda é possível compartilhar de sua revolta e acreditar em suas palavras.
ter consciência demais é uma doença, uma doença de verdade, perfeita.
Com o desenrolar da narrativa, no entanto, o narrador revela gradualmente sua verdadeira face. Na segunda parte, relata acontecimentos de sua vida que expõem seu comportamento perturbado e deixam claro que tipo de pessoa ele realmente é.
No começo senti compaixão por ele, mas esse sentimento foi se desfazendo à medida que a história avançava. Embora eu compreendesse a dor que o consumia, suas atitudes tornaram-se cada vez mais insuportáveis.
Não se trata de uma trama repleta de suspense ou reviravoltas inesperadas, mas a forma como Dostoiévski conduz a narrativa prende o leitor com intensidade. Talvez seja um desejo mórbido de testemunhar tamanha miséria humana ou até mesmo uma identificação sombria. Talvez seja apenas a genialidade do autor, capaz de transformar qualquer assunto em algo irresistível, mesmo quando nos causa repulsa.
o ser humano ama o sofrimento e não vai trocá-lo por prazer nenhum
Memórias do Subsolo marca o início da segunda fase da obra de Dostoiévski. Não é uma leitura leve ou prazerosa, mas a experiência não deixa de ser valiosa. Um livro que desperta sentimentos tão fortes, ainda que desconfortáveis, sempre merece ser lido.

Diário de leitura
Aqui está meu diário, tudo que senti durante a leitura dessa obra. Não se iluda com as primeiras impressões, pois elas sempre podem mudar. Ou não.
ALERTA SPOILER
O começo
Logo de cara fiquei assustada, porque descobri que me identifico com o personagem mais odiado da Rússia literária. Ele vive escondido em um subsolo e, sinceramente, eu já pensei em cavar o meu também.
Minha vida, na ocasião, já era triste, desordenada e solitária, à beira da selvageria. Não me dava com ninguém, até evitava falar e, cada vez mais, vivia metido no meu canto.
A primeira parte do livro parece um enorme tweet mal-humorado que nunca acaba. Mas no fundo, eu entendo esse miserável. Talvez eu também fosse amiga dele… online apenas, porque conviver pessoalmente seria um inferno.
O meio
Cheguei nessa parte esperando começar a odiar o cara, mas por enquanto só sinto dó. Ele conta uns episódios da vida e a cada página fica mais claro que ele é o tipo de pessoa que você nunca convidaria para jantar. E se convidasse, ia se arrepender antes da sobremesa. Não dá para saber se o que ele narra realmente aconteceu ou se é só a novela mexicana que passa na cabeça dele. O mais louco é que eu me identifico com isso também, porque minha mente vive criando episódios inéditos de terror psicológico estrelados por mim mesma.
Mesmo assim, o sujeito começa a mostrar umas atitudes que fazem a gente olhar e pensar: “hum, talvez não seja apenas azarado, talvez seja só um babaca mesmo”. O jantar com o colega de escola e o que acontece com Liza são exemplos perfeitos de como transformar dó em vergonha alheia. Ele vai ladeira abaixo, mas ainda não consigo odiar. Continuo presa nesse relacionamento abusivo literário em que só consigo sentir pena.
O fim
Quando terminei, só consegui pensar: esse homem é insuportável. É como se ele tivesse assinado um contrato vitalício com o auto boicote. Ele tem plena consciência do que é, reconhece todos os problemas, mas na hora de melhorar prefere renovar a assinatura do pacote “vida miserável premium”. Vive nessa oscilação entre médico e monstro, uma hora se acha patético, na outra se acha gênio. No fundo, é só um mecanismo de defesa. O problema é que o mecanismo já está quebrado e ninguém se deu ao trabalho de consertar.
Ah, que homem patético. Terminei o livro me perguntando se Dostoiévski queria mesmo que o leitor fechasse a última página com a sensação de ter passado horas com alguém pior que o Fiuk. Não é agradável, mas também não dá para dizer que não vale a pena. Afinal, se a gente sobreviveu a esse personagem, pode sobreviver a qualquer coisa.
Aliás, já chega, senão isto não vai acabar nunca: sempre vai haver uma coisa mais sórdida do que a outra…


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