Vou ser honesta, não é fácil encarar um calhamaço. Você precisa querer muito conhecer aquela história para se aventurar por um livro tão grande. É comprido, exige mais tempo do que obras menores, e a gente sabe que, hoje em dia, tempo virou artigo de luxo na lojinha do capitalismo.
Um defeito de cor estava havia muito tempo na minha prateleira virtual de “quero ler um dia, mas não agora”, justamente por causa do tamanho e também por um certo medo da história. Minha saúde mental não é lá essas coisas, e leituras muito devastadoras às vezes pioram bastante o cenário.
Contudo, um dos grupos de leitura dos quais participo acabou sorteando a obra da Ana Maria Gonçalves como leitura do mês, e eu pensei que era agora ou nunca. Ou eu lia esse bichão com a companhia e o incentivo de outras pessoas, ou jamais encontraria forças para enfrentá-lo sozinha. Aproveitei uma promoção da Amazon e comprei a edição física de Um defeito de cor. Não sou de comprar muitos livros, costumo recorrer às bibliotecas, mas esse era um daqueles que eu queria ter na estante.
Para quem não conhece, o romance conta a história de Kehinde, uma menina africana que é capturada e trazida para o Brasil como escravizada. Acompanhamos toda a sua trajetória, tudo o que sofreu e tudo o que construiu ao longo da vida. É uma aula de história, de humanidade e de resistência.
A primeira parte da leitura não é nada fácil. As coisas que acontecem com a protagonista são aterradoras, desde sua vida na África até a chegada ao Brasil. É um começo de existência tão duro quanto a própria experiência de ler essas páginas.
Mas é também nesse início que a gente percebe que todo aquele receio em relação ao tamanho do livro talvez não fosse necessário. De alguma maneira, acabamos associando calhamaços a leituras difíceis, especialmente uma obra tão consagrada e que aborda temas tão importantes. Só que a realidade é outra. A leitura flui com enorme naturalidade. A narrativa em primeira pessoa funciona como um grande relato íntimo, como se a própria Kehinde estivesse sentada diante de nós contando sua história. E ela é uma narradora extraordinária.
Devorei o livro até mais ou menos a metade. Essa etapa passou voando. Depois, confesso que a leitura me cansou um pouco, o que também é perfeitamente compreensível. Estamos acompanhando a vida inteira de uma pessoa. Além disso, Ana Maria Gonçalves aproveita a narrativa para apresentar ao leitor aspectos das religiões africanas, da cultura e do contexto histórico daquele período, o que torna tudo ainda mais rico e denso.
Em determinado momento, deixei de lado o medo de spoilers e comecei a pesquisar os temas que apareciam na obra. Foi então que um universo inteiro de conhecimento se abriu diante de mim. Acho que esse é um daqueles livros que continuam com você mesmo depois de fechar as páginas, muitos novos aprendizados que carregarei comigo para sempre.
A quantidade de camadas presentes na narrativa é impressionante. Dá para discutir maternidade, escravidão, religião, identidade, pertencimento, ancestralidade, empreendedorismo feminino e tantas outras coisas que seria impossível listar tudo aqui. Um dos temas que mais me tocaram foi justamente a maternidade. Há várias mães que perdem seus filhos, e existe uma ausência específica que move toda a estrutura do romance. A sinhá que não consegue ser mãe, os abikus, crianças destinadas a partir cedo demais, a vida das mulheres sem filhos em contraste com a daquelas que carregam essa experiência. No fundo, também é um grande livro sobre ser mãe.
Kehinde me lembrou muito a minha própria mãe. Uma mulher empreendedora, que se cerca de pessoas que a ajudam e que sempre encontra uma forma de transformar os limões da vida em alguma coisa útil. Talvez por isso eu tenha me apegado tanto a ela.
Quando terminei a leitura, minha vontade era voltar imediatamente para a primeira página e começar tudo de novo, algo que certamente ainda farei. Afinal, esse já é um clássico, e clássicos têm essa característica curiosa de nos chamar de volta ao longo da vida. O final me agradou muito. Senti que a história manteve a mesma força e a mesma qualidade até a última página.
Para quem ainda pretende ler essa obra, deixo algumas recomendações. Se você não gosta de spoilers, não leia a orelha do livro. Preste bastante atenção aos acontecimentos no Rio de Janeiro. Pesquise os fatos históricos e os temas que aparecem ao longo da narrativa. E, principalmente, aproveite ao máximo essa experiência, porque você só terá a oportunidade de ler Um defeito de cor pela primeira vez uma única vez. E tenho a impressão de que essa será uma das melhores leituras da sua vida.
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