Coisa de Rico: Michel Alcoforado desvenda os hábitos da elite brasileira


Depois de cruzar com ricos excêntricos em uma viagem e ficar admirado com o comportamento desses brasileiros endinheirados, o antropólogo Michel Alcoforado decidiu pesquisar o universo da riqueza em nosso país. Desse doutorado nasceu este livro incrível, que faz a gente rir e sentir raiva ao mesmo tempo.

Ele narra sua aventura para conseguir entrar nesse mundinho fechado da elite tupiniquim, todos os códigos que precisou desvendar, as transformações, as fofocas e os acontecimentos inusitados que seriam impensáveis para pessoas comuns. O autor nos ajuda a entender por que os endinheirados brasileiros nunca se consideram ricos, por que as coisas são mais importantes do que o próprio dinheiro e como o tempo é essencial para ser aceito nesse clubinho exclusivo.

Há madames tentando preservar o diferencial de sua riqueza de berço, grandes empresários que enxergam pessoas como objetos, herdeiros ocupados desocupados, todos sempre muito preocupados em manter o status e em performar riqueza.

A narrativa do autor é deliciosa e nos faz mergulhar com ele nessa observação, por vezes bastante bizarra. Embora o livro traga referências a diversos autores e seus estudos, a leitura nunca se torna difícil ou cansativa. Pelo contrário: é envolvente e divertida. Eu não entendo nada de antropologia, mas diria que é mais um livro de entretenimento do que de pesquisa.

Durante a leitura, senti uma mistura de emoções. Em alguns momentos, achei os ricos personagens patéticos; em outros, tive pena do estilo de vida que são obrigados a performar. Mas havia sempre uma pontinha de revolta me cutucando e incomodando, não tem como não se indignar com tanta desigualdade social. Acima de tudo, porém, senti grande satisfação por, além de compreender um pouco mais sobre o comportamento do nosso povo, receber uma boa dose de fofoca.

As histórias que Michel conta parecem saídas de um romance, com comportamentos e situações tão absurdos que só mesmo pessoas muito ricas poderiam protagonizar. E é exatamente disso que o livro trata: do luxo e do que as pessoas são capazes de fazer em nome dele.

A verdade é que o livro me prendeu do começo ao fim. É impossível parar de ler. Daquelas leituras que ocupam seus pensamentos mesmo quando o livro está fechado e despertam a vontade de voltar a cada pausa. A escrita é fluida, leve e deliciosa, como uma boa matéria de fofoca com algum embasamento científico, mas sem ser didática. Repito: não é um livro de estudo, é diversão!

Recomendaria este livro a qualquer tipo de leitor, pois, apesar de ter nascido de uma tese de doutorado, a obra é, acima de tudo, divertida e instigante. Afinal, quem não quer espiar, ainda que por um instante, o mundo dos milionários brasileiros? Dizem que de perto ninguém é normal, mas esses ricos superam todas as expectativas.

Diário de leitura

Aqui está meu diário, tudo que senti durante a leitura dessa obra. Não se iluda com as primeiras impressões, pois elas sempre podem mudar. Ou não.

ALERTA SPOILER

O começo

Para saber se vale a pena comprar um livro, eu sempre baixo uma amostra do Kindle antes. E, quando comecei a ler a amostra de Coisa de Rico, tive que comprar imediatamente! O livro já começa com o autor contando como decidiu investigar a vida dos ricos e como fez para conseguir realizar essa empreitada. Convenhamos, entrar nesse mundo não é nada fácil. Ser aceito “pelos de dentro” exige mais do que um bom terno e cara de paisagem. É muito divertido acompanhar as tentativas dele, cada uma mais ousada que a outra.

Fiquei vidrada. A gente sempre fica curiosa com o que é proibido, né? E o autor entrega esse bastidor com uma mistura deliciosa de ironia e conhecimento científico, já que o moço é antropólogo e sabe muito bem contextualizar o comportamento da elite dentro da história do Brasil.

Adorei saber de onde surgiu a expressão patricinha e todos os truques que os ricos usam pra decidir quem entra (ou não) no seu círculo social. Me senti assistindo a um reality show narrado com embasamento teórico.

O mais genial é como ele se infiltrou nesse universo, aplicando um dos costumes favoritos dos endinheirados: a invisibilização dos funcionários. Disfarçado de quem “não importa”, ele pôde observar tudo.

Pra conversar com essa nova tribo, teve que virar um deles: mudou o jeito de falar, de se vestir, de se portar. Caso contrário, seria imediatamente rejeitado. É como virar um macaco pra ser aceito por outros macacos. Assim nasceu o antropólogo do luxo, o especialista que, finalmente, conquistou a confiança dos ricos.

E, mesmo no começo do livro, eu já me vi revoltada, pois o retrato é o mesmo de sempre: a elite continua vivendo como se ainda tivesse escravos. Também fiquei impressionada com a forma como ele decodifica gestos, entonações e rituais, parece quem aprende um idioma secreto e, de repente, fala com fluência. Coisa de antropólogo, né?

O meio

Na metade da narrativa já não tinha mais como segurar a irritação. É impressionante como os ricos vivem dentro de um aquário dourado, preocupadíssimos com a possibilidade de um “de fora” entrar e, veja o horror, desvalorizar suas “coisas de rico”.

Nessa parte do livro eu já estava quase jogando a leitura pela janela de raiva. Ainda bem que o autor é esperto e consegue rir de toda essa tragédia social e fazer o leitor rir junto, meio por catarse, meio por desespero. Porque, sinceramente, é aquele clássico “rir pra não chorar”…

O fim

O livro termina de um jeito tão absurdo quanto a realidade dessa gente esquisita que se acha o suprassumo da sociedade brasileira: numa briga para decidir quem vai pagar o silicone da madame. Uma disputa que chega até as mais altas cortes do país, o absurdo do absurdo. É o talento dessa gente para transformar coisas irrelevantes em questões de máxima importância e urgência. Seria patético, se não fosse imoral e revoltante.

Termino a leitura satisfeita com as fofocas entregues, a diversão proporcionada e bastante reflexiva sobre as condições de vida dos brasileiros. Definitivamente, uma das melhores leituras do ano. E, quem diria, um ótimo lembrete de que o país pode até não ter distribuição de renda, mas tem distribuição de absurdos de sobra.


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