A autora aproveita o pedido da editora para escrever algo sobre o diário de Marie Curie e decide fazer muito mais do que uma simples apresentação desse material. Ela escolhe costurar a história dessa grande cientista com a sua própria experiência de luto pela morte do marido. A partir disso, o livro passa a alternar entre a vida de Marie Curie e o processo pessoal de Rosa Montero ao lidar com a perda, criando um diálogo constante entre essas duas mulheres separadas pelo tempo, mas unidas pela dor.
Ao longo da narrativa, acompanhamos tanto a descoberta da radioatividade quanto a trajetória de vida da vencedora do Nobel, tudo contado de forma extremamente informal, acessível e envolvente. Eu, que conhecia a história da descoberta do rádio apenas de maneira superficial, fiquei completamente vidrada na vida dessa desbravadora da ciência. A forma como Rosa Montero apresenta os fatos faz com que mesmo temas científicos pareçam próximos e interessantes, nunca cansativos.
Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar durante um instante pela fresta da verdade - monumental, ardente e impassível. Nunca nos sentimos tão autênticos quanto ao beirarmos essas fronteiras biológicas: temos a clara consciência de viver algo grandioso.
O luto é claramente o eixo central do livro, mas ele não aparece isolado. A narrativa também aborda a luta das mulheres por reconhecimento na ciência, especialmente em uma época tão hostil quanto a vivida por Marie Curie. A maneira como ela precisou se impor, trabalhar o dobro e enfrentar preconceitos constantes acaba dialogando muito bem com o sofrimento pessoal causado pela perda de Pierre Curie.
A escrita da Rosa Montero sempre me cativa demais. Eu gosto de tudo o que ela escreve. Confesso que, depois de ter visto uma resenha muito negativa sobre essa obra, achei que talvez dessa vez eu não fosse gostar tanto da leitura. Mas não teve jeito. Sempre que leio os livros de ensaio dessa autora, simplesmente não consigo parar. O prazer da leitura é enorme. Quando você gosta da escrita de alguém, você gosta, e pronto. Mesmo quando ela exagera em algumas hashtags meio ridículas no meio do texto ou escorrega em frases um pouco problemáticas.
Como de costume, Rosa Montero mistura dados históricos, biográficos e científicos com reflexões muito pessoais. De uma forma fluida e descontraída, ela percorre toda a vida de Marie Curie, desde a infância até a morte, dando destaque especial à relação com Pierre Curie e ao impacto devastador de sua morte precoce. É quase irônico pensar que, mesmo após a perda do marido, Marie já estava sendo lentamente consumida pela radioatividade que ela mesma ajudou a revelar ao mundo.
Já li alguns livros sobre luto e, sinceramente, não acho que este seja um dos mais densos sobre o tema. Embora o luto seja o fio condutor da obra, a leitura não pesa como outras que já fiz sobre o assunto. A história desses dois cientistas, suas descobertas, suas vidas e contradições fazem com que o livro vá muito além da dor da perda. No fim, ele se parece mais com uma biografia atravessada pelo sentimento do luto do que com um livro exclusivamente sobre sofrimento.
… quando o sofrimento nos alquebra, a arte consegue transformar essa ferida feia e suja numa coisa bela.
O diário de Marie Curie aparece no livro como apêndice, incluído na íntegra, até porque é bem curtinho. Ainda assim, é uma leitura muito interessante. Mesmo já tendo contato com alguns trechos ao longo do livro, ler o diário completo traz uma camada extra de intimidade e emoção para a experiência.
Recomendo A ridícula ideia de nunca mais te ver para quem se interessa pela vida de grandes personalidades da história e para quem procura um livro sobre luto que não seja excessivamente pesado. Também é uma ótima leitura para quem já aprecia a escrita da Rosa Montero, como eu. Apesar de o tema parecer difícil à primeira vista, a leitura é leve, envolvente e muito prazerosa de acompanhar.
a gente não se recupera: se reinventa.


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