Brás Cubas era um nepobaby? O filhinho de papai de Machado de Assis

 


Quem disser que Brás Cubas não era um nepobaby está errado. Com certeza, se tratava de um filhinho de papai. Consigo perfeitamente imaginá-lo nos dias atuais fazendo stories e soltando pérolas ao lado do seu parça Quincas Borba. O que salva esse sujeito é que, depois de morto, escreveu um puta livro. Esse filho da mãe!

Convenhamos que também é mais fácil escrever um livro estando falecido, né? Basicamente você não tem mais nada a perder, não deve satisfação a ninguém e já está livre das consequências. Talvez seja justamente por isso que ele se sinta tão à vontade para zoar deliciosamente os leitores e falar dos próprios defeitos com uma sinceridade que só um defunto poderia ter.

Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar…

Brás Cubas vive reclamando que não foi grande coisa na vida, que não conseguiu realizar grandes feitos. Mas o que eu percebo é que ele nunca desistiu de tentar. Se não foi o ministério, tentou o jornal. Se não deu certo a carreira jornalística, tentou o emplasto. E não ficou por aí. Nem a morte conseguiu detê-lo e ele acabou escrevendo uma das maiores obras da literatura. Um verdadeiro brasileiro que não desiste nunca e que falha todas as vezes.

Para mim, ele é um campeão. Com um pênalti nos últimos segundos da prorrogação, mas, no fim das contas, um campeão. Mas essa é só a minha reflexão sobre o livro e não faz diferença nenhuma, porque provavelmente não condiz com nenhuma análise séria sobre a obra.

Aliás, também sou contra a opinião do próprio autor de que sua vida não teve nenhuma grande realização. Poxa, ele viveu um grande amor, mesmo que de uma forma toda torta. Foi eleito deputado, mesmo que apenas uma vez e sabe-se lá como conseguiu isso. Foi amigo de uma das melhores figuras literárias da nossa história e trabalhou como voluntário. É uma vida boa, muito melhor que a minha, e sejamos honestos, que a sua também, leitor.

a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre.

Talvez Brás Cubas precisasse ser um pouco mais otimista. Mas aí não teríamos Memórias Póstumas, e ele talvez se tornasse um terrível coach além-túmulo. Ninguém aqui gostaria disso, tenho certeza. Apesar de que, se também tivéssemos Machado de Assis como médium escritor dessa obra, poderia ficar maravilhoso.

A verdade é que, no final, todos nós temos nossas vidinhas mais ou menos e também não alcançamos grandes realizações. O problema é que, no caso de Brás Cubas, por já ser um herdeiro sem grandes desafios na vida, era essencial para ele realizar alguma coisa espetacular. Até porque sua família sempre quis ser relevante, chegando ao ponto de mentir para ocupar um status mais importante.

E Brás Cubas foi sempre muito patético na tentativa de alcançar suas aspirações. Como todo riquinho que vemos por aí e que só é alguma coisa na vida porque tem a ajuda dos parentes. Bem que o pai de Brás Cubas tentou. Mas seu filho era tão medíocre que, mesmo com toda a ajuda do provedor, não conseguiu.

a solidão pesava-me, e a vida era para mim a pior das fadigas, que é a fadiga sem trabalho.

No final, contudo, para mim, como uma leitora amadora, a mensagem do livro é que o amor é a coisa mais importante de nossas vidas, porque a obra acaba sendo toda sobre isso. Depois da morte, o que o defunto mais leva consigo, além das memórias, são os amores. Não são os emplastos, nem os cargos públicos. Do que ele mais fala em sua autobiografia é das suas paixões, porque, no fim, talvez seja isso que realmente importe.

Pessoas no leito de morte sempre dizem que gostariam de ter tido mais tempo com a família, com aqueles que amaram durante a vida. No fim das contas, o que mais prezamos é estar perto das pessoas que mais amamos.

Com certeza, alguém de coração amargo e com mais conhecimento e inteligência do que eu vai dizer que Machado estava apenas criticando o romantismo da época. Não ligo. Eu me envolvi no caso de Brás Cubas e Virgília e gostei de acompanhar essa doidera.

A verdade é que pouco importa do que o autor estava falando. O que faz toda a diferença nessa leitura é a escrita de Machado de Assis. A ironia, a conversa com o leitor, o sarcasmo e o humor dentro de uma narrativa primorosa.

Ele consegue transformar as memórias de um perdedor na grande realização que o próprio personagem não foi capaz de alcançar em vida.

0 Comentarios

Tecnologia do Blogger.