Bons Tempos: resenha do livro sobre trad wives, maternidade e viagem no tempo

 


Diário de leitura

Sabe o que eu não entendo sobre essas trad wives, ou as famosas esposas tradicionais, conservadoras, recatadas e do lar? Elas pregam uma vida de submissão e de vulnerabilidade da mulher parideira que só faz cuidar da casa, do marido e dos filhos, mas no fundo são grandes empreendedoras, que trabalham com internet, fazem muito dinheiro e basicamente enganam idiotas que acreditam nessa balela de mulher frágil em pleno 2026!

Dito isso, eu adorei o livro Bons Tempos. A personagem é intragável, mas, ao mesmo tempo, me despertou tanta empatia. Porque, sendo uma escrota ou não, ela ainda é mulher em uma sociedade patriarcal e, consequentemente, não importa que escolhas ela faça, vai sofrer.

“É uma escolha quando só se tem uma alternativa?”

Acontece que, como ela tem essa característica encantadora de enganar outras mulheres na internet e de ter uma cabeça tão teimosa e ignorante que dá vontade de bater, quando ela se dá mal a gente se sente um pouco satisfeito.

Existe uma expressão em alemão para sentir prazer pelo sofrimento alheio, Schadenfreude, e foi isso que me fez continuar lendo Bons Tempos, apesar de não concordar em nada com o comportamento da protagonista. Além do fato de haver um grande mistério de como é que ela, de repente, foi parar no passado vivendo uma vida que ela pregava, mas, ao mesmo tempo, odiava.

Aliás, é muito engraçado como ela se contradiz o tempo inteiro. Ela deseja ter muitos filhos, mas odeia ser mãe. Ela quer ser submissa ao marido, mas o cara é um imbecil tão grande que, se ela não mandar nele, ele não sai do lugar. Ela quer fazer pão caseiro, mas é uma péssima cozinheira. Acima de tudo, ela quer ser uma mãe e dona de casa tradicional, mas faz rios de dinheiro na internet com um negócio próprio.

“É aquele fio longo e dourado de insinceridade que une toda a raça humana”

O que achei de Bons Tempos

Eu achei o livro muito divertido. Obviamente, ele também levanta assuntos relevantes e pode trazer debates importantes para a sociedade, mas, como eu sou uma pessoa que lê para se entreter, achei que essa obra cumpriu muito bem com esse papel.

Quando eu pegava Bons Tempos, não conseguia largar. A narrativa é bem fluida e interessante, é tudo bem amarrado e não me cansei da história em momento algum.

Sei que algumas pessoas não gostaram muito, não acham que merece o hype e tudo mais. Porém, na minha opinião, o livro é bem escrito, sim, e acabou sendo uma das minhas melhores leituras desse ano.

Tanto que eu nem queria terminar. Fiquei enrolando nas últimas páginas pra ele durar mais. Apesar da curiosidade extrema de saber o que estava realmente acontecendo.

Natalie, maternidade e as contradições da protagonista

A obra me trouxe uma ampla gama de sentimentos e emoções. Eu odiava a Natalie e também torcia por ela. Torcia pra que ela despertasse, pra que ela se livrasse daquele pesadelo, ao mesmo tempo em que me regozijava quando ela sofria as consequências de suas atitudes questionáveis.

Senti muita empatia por ela, principalmente em relação ao caos que é a maternidade e que eu conheço bem, também pela forma como os homens da história a tratavam.

Odiei e amei a filha mais velha dela e tive um intenso nojo do sogro e do marido.

“Elas não era felizes de verdade. Só fingiam ser.”

O final de Bons Tempos

O final me surpreendeu. Eu já estava imaginando o que poderia estar acontecendo, mas não esperava aquele desfecho que, pra mim, foi genial. Eu não poderia imaginar uma solução melhor para a situação de viagem no tempo da protagonista.

A verdade é que é muito difícil ser mulher vivendo no patriarcado. Seja uma feminista radical ou uma esposa tradicional, super religiosa e conservadora, o sistema está contra todas nós.

Pra mim, todas as personagens femininas eram vítimas, vítimas de um sistema que acaba afetando e limitando todas as mulheres, independentemente do espectro político em que estejam. É isso que precisamos entender. Em vez de ficarmos umas contra as outras, precisamos nos unir e continuar lutando.

Um último recado para quem quiser ler Bons Tempos: não espere uma história profunda, cheia de reflexões, pois não é o caso. Eu li sem essa intenção e passei bons tempos com essa leitura.

Aproveite!

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