Sem tempo a perder - Ursula K. Le Guin mostrando que escrever bem vai muito além da ficção

 


Quando Ursula K. Le Guin descobriu que José Saramago escrevia em um blog, sentiu como se tivesse encontrado uma porta secreta. Ele usava aquele espaço para pensar em voz alta e ela percebeu que também poderia fazer o mesmo. O que nasceu como um experimento virou um presente para nós, leitores que agora recebemos em formato de livro uma coletânea de textos leves, afiados e cheios de humor.

As primeiras crônicas tratam do envelhecimento e já mostram por que abriram o livro. A sinceridade e a delicadeza com que Le Guin fala da idade criam uma vontade imediata de continuar lendo. Em uma delas, ela explica a importância de aceitar a idade que se tem. Ao me ver diante dessa afirmação, senti não apenas identificação, mas também uma pontinha de desejo. Uma velhice parecida com a dela, cercada de livros, escrita e observações inteligentes, seria um privilégio.

A velhice geralmente envolve dor e perigo e inevitavelmente termina em morte. A aceitação disso demanda coragem. A coragem merece respeito.

Logo depois surgem textos sobre cartas de leitores. Não foram os que mais me agradaram, embora eu reconheça que a escrita impecável deixa tudo mais interessante. Mesmo quando o assunto não me chama muita atenção, Le Guin encontra um jeito de torná-lo leve e divertido. Ela tem esse talento raro de nos fazer seguir com prazer por qualquer caminho que escolha percorrer.

No meio da leitura aparece um grupo de crônicas que adorei. Le Guin fala sobre fantasia com uma revolta charmosa e cita Tolkien, o que sempre me conquista. Ela também comenta o dom narrativo, aquela habilidade misteriosa que faz certos livros imperfeitos serem impossíveis de largar. Ao ler isso, senti como se estivesse ouvindo alguém colocar em palavras uma sensação que eu sempre tive.

A fantasia não apenas pergunta “ e se as coisas não seguissem assim como são?”, mas demonstra como poderiam ser se seguissem de outra forma.

Há também momentos de grande sensatez quando ela discute feminismo e sororidade. E há um humor delicioso quando fala de religião. Esses trechos mostram o equilíbrio que ela domina com naturalidade, uma mistura de firmeza e ironia que só grandes escritoras conseguem manter.

E então chega Pard. O famoso gatinho da autora é protagonista de várias crônicas e rouba a cena com facilidade. Suas aventuras com camundongos e suas pequenas excentricidades deixam o livro mais leve e iluminam o cotidiano da autora com graça.

Já os textos sobre política norte-americana não me conquistaram tanto. Não por falta de qualidade, mas por cansaço mesmo. Ainda assim, Le Guin escreve de um jeito tão claro e elegante que até temas que normalmente evito acabam se tornando suportáveis.

O formato da coletânea permite qualquer ritmo de leitura. Dá para ler todas as crônicas de uma vez só ou aproveitar cada uma aos poucos. Escolhi a segunda opção. Li devagar, como quem saboreia uma sobremesa especial, e tentei aprender algo com cada texto dessa autora que inspira pela simplicidade e pela profundidade.

Talvez a maior força do livro esteja na sensação que ele provoca. Le Guin faz a gente querer escrever. Há algo na honestidade dela que desperta uma vontade de pegar um caderno e registrar pensamentos sem pretensão. Ela se inspirou em Saramago e, sem perceber, agora inspira a gente também.

Escrever é uma aposto arriscada. Sem garantias. Você tem de lançar-se à sorte.

Este é um livro perfeito para quem gosta de entender o universo da escrita e também para quem aprecia textos reflexivos que não deixam de ser divertidos e acolhedores. Ainda não li a ficção da autora, mas depois deste encontro com sua voz pessoal pretendo procurar seus clássicos. Se suas histórias forem tão encantadoras quanto suas crônicas, tenho certeza de que vou me apaixonar.

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