A Boba da Corte, de Tati Bernardi: uma crítica ácida sobre riqueza, privilégio e pertencimento

Era preciso que eu vingasse, vencesse, ganhasse dinheiro.

Nesse livro, Tati Bernardi narra a vida de uma suburbana que ascende à classe mais abastada e passa a conviver com pessoas de quem ela, no fundo, só quer rir. Mas, para conseguir pertencer àquele mundo, acaba assumindo o papel de fazê-los rir. A boba da corte do título não está ali por acaso.

Eu sei que muita gente odeia a Tati Bernardi, mas eu simplesmente não consigo sentir isso por ela ou pelo que ela escreve. Talvez porque eu me identifique demais. Sou tão neurótica quanto ela, e saber que existem outras pessoas assim por aí sempre me faz sentir um pouquinho melhor.

A boba da corte tira sarro da galera mais intelectualizada e bem-nascida. Gente cheia da grana, que gosta de ler, tem alguma consciência social e acha que isso automaticamente os torna melhores do que o resto dos ricos do Brasil. Spoiler: não torna.

Rico progressista emocionado é mais chato do que pobre bipolar em mania

Ela fala bastante da própria vida, o que é óbvio, afinal, se não fosse assim, não seria Tati Bernardi. O livro gira muito em torno de um relacionamento dela com um desses herdeiros, e a narrativa é conduzida principalmente pela dinâmica do casal. No meio disso, aparecem vários flashbacks da vida passada da autora, quando ainda era pobre, misturados ao estranhamento de ascender socialmente e às consequências desse processo.

A Tati escreve sempre em primeira pessoa, de um jeito bem solto, cheio de palavrões e expressões que fazem pessoas como eu se sentirem em casa. Por isso, achei o livro muito gostoso de ler. É uma leitura rápida, fluida, que lembra uma grande crônica engraçada e interessante. Não vou entrar no mérito de dizer se o livro é bem escrito ou não, até porque não tenho esse conhecimento técnico todo. Só posso dar a minha opinião, e eu gostei.

Ao ler a história, senti um certo sabor de vingança. Uma satisfação meio culpada de ver essas pessoas sendo expostas e zoada pela autora. No fundo, o livro funciona como um grande desabafo da Tati, assim como suas crônicas semanais.

Procuro minha mãe em todas as pessoas, o tempo todo.

A leitura me prendeu do começo ao fim justamente por ser muito fácil e instigante. É gostoso ler alguém falando mal dos outros, pelo menos pra mim. Acho importante levar em conta a personalidade da autora antes de começar o livro, porque, se você espera uma narradora boazinha e certinha, vai se frustrar bastante.

A Tati fala tanto de seus amantes, tanto no livro quanto nas crônicas, que às vezes eu me pergunto como ela teve tempo de namorar ou ficar com tanta gente. Nesta obra, o relacionamento ocupa um espaço enorme e dá a impressão de que esse namorado foi o principal alvo da história, além, claro, dos outros riquinhos com quem ela conviveu e ainda convive.

E depois, o que você fez? Era a pergunta que sempre me arrancava de algumas das relações mais importantes da minha vida.

O livro não tem exatamente uma história com começo, meio e fim. É mais um grande relato meio bagunçado, sem uma linha narrativa muito definida, e o final não traz nenhum grande desfecho. Como eu disse, soa muito mais como um desabafo do que como um romance tradicional.

Acho que esse é um livro para pessoas que gostam de leituras simples, mas carregadas de sentimentos fortes. Talvez quem gostou de Coisa de rico também vá gostar deste, pelo menos foi o meu caso. É uma leitura para quem tem curiosidade sobre a vida alheia e não leva a vida tão a sério, preferindo encará-la com bastante sarcasmo.





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